27 fevereiro 2011

O calvário da Serra Fria

Todos os passeios têm a sua história. Gosta-se mais de uns do que de outros, sofre-se mais nuns do que noutros. Mas uma coisa é certa, é na simbiose entre a aventura e o espírito de sofrimento que vamos buscar o prazer tão reconfortante destas jornadas, que, além de reforçarem os laços de amizade, vão proporcionando momentos de rara beleza, onde ficamos a conhecer um pouco mais do nosso País (e já agora do país de nuestros hermanos) e das suas gentes.
No que me diz respeito, este foi um dos passeios mais bonitos que os Trinca Pedras fizeram, mas também um dos mais duros. Os 77 quilómetros percorridos, na companhia do pessoal do BTT Almonda, e os quase 1800 metros de acumulado não são suficientemente representativos da dureza do percurso, que durou aproximadamente 9 horas, tendo a volta acabado por volta das 19h00, já com a noite caída sobre Santo António das Areias, pequena aldeia que serviu de ponto de partida e de chegada, situada no sopé da Serra do Marvão.
Logo pela manhã, tinham-me informado que os primeiros 20 quilómetros seriam os mais difíceis. O que alguém se esqueceu de dizer foi que os primeiros 20 quilómetros seriam duríssimos, com um acumulado acima dos 1200 metros, já que na primeira parte do percurso, ainda em solo português, e logo no início, tivemos de “atacar” a Serra do Marvão (867m), para ao início da tarde começarmos o calvário na Serra Fria (953m). Estas duas serras fazem parte do sistema montanhoso do Parque Natural da Serra de São Mamede, que além da Serra de São Mamede, com os seus 1025 metros de altitude, tem ainda a Serra de Castelo de Vide (762m). Opções que ficarão para uma outra oportunidade.
A subida ao Marvão foi dura, mas logo esquecida assim que chegámos à vila do Marvão, com uma lindíssima vista, sob um sol primaveril, vislumbrando-se, num dos horizontes, o manto branco da Serra da Estrela.
Após a visita cultural àquela aldeia, onde nem faltou uma ida à cisterna do Castelo do Marvão, o grupo iniciou a descida até à Portagem, em caminho empedrado e com muita pedra solta, que desaconselhava largar-se o travão em demasia, testando a resistências das bikes (e já agora dos braços).
Já na Portagem, local simpático e a sensivelmente 10 quilómetros da fronteira com Espanha, “trincas” e “almondas” preparavam-se para começar a subida para a Serra Fria, mas não sem antes haver uma acesa e produtiva discussão filosófica sobre a melhor forma de se atravessar o Rio Sever. O resultado não foi consensual e um pequeno grupo de “iluminados” lá decidiu optar por uma solução pouco ortodoxa, que incluiu andar com as bikes às costas, perdendo-se algum tempo, o que originou de imediato o raspanete do Brites.
Minutos depois, e já pela frente o segundo pico do dia, eis que surge um homem, idoso e sapiente, a avisar a juventude para os perigos que se avizinhavam: Uma caça ao javali.
Perante este alerta, reagrupámo-nos, mas, verdade seja dita, pouco crédito dei ao aviso que tinha ouvido, porque lá pensei que seriam alguns “gatos pingados” atrás dos animaizinhos. Só algum tempo depois é que comecei a perceber a dimensão da caçada. Na verdade, tínhamos entrado numa autêntica “War Zone” entre caçadores e javalis, com um grupo de “malucos” em cima de bikes no meio de potencial fogo cruzado.
Mais adiante, e após uma instrutiva conversa com um caçador, lá chegámos à conclusão que não era boa ideia andar num local com cerca 150 caçadores, com dedo no gatilho, prontos para disparar contra qualquer coisa que mexesse.
“Trincas” e “almondas” bateram em retirada e começaram descer até à estrada, num percurso com muita pedra solta, para o qual, conta quem viu, o Brites não teve as mãozinhas suficientes (parece que houve alguém que se meteu à sua frente, segundo o Brites).
A caçada obrigou o grupo a fazer um desvio por alcatrão, antes de apanhar novamente o “track” em direcção ao pico da Serra Fria. No entanto, nem todos optaram por este caminho, tendo seguido outro percurso, penso que devido a alguma confusão, que é perfeitamente normalmente nestas situações (ao meio da tarde, quando reagrupámos, falei com o Nuno, que me tinha dito que nem sequer se tinha apercebido da separação do grupo).
Seja como for, eu lá fui um dos que segui com o grupo que começou a subir para a Serra Fria, convencido de que seria mais um desafio que, com mais ou menos dificuldade, se venceria. Como estava enganado.
Digo-vos que foi das subidas mais difíceis que fiz até hoje. O piso era péssimo, com muita pedra solta, e nalguns momentos, o nível de inclinação era muito acentuado. Além da longa distância da subida, andámos tipo montanha russa. Segundo o Rui me disse, chegámos aos 800 metros, para descer aos 600 e, finalmente, na estucada final, voltar a subir acima dos 900 metros, já em terras espanholas.
Outras das principais causas do calvário que estávamos a viver, foi o factor psicológico. Atrás de cada monte escondia-se um outro monte, e quando finalmente, já no limite das minhas forças, esperava ter chegado ao topo da Serra Fria, logo seguido do João T, eis um cenário simplesmente avassalador (as fotos do Brites são elucidativas).
Perante mim tinha um vale de dimensões astronómicas que me separava do meu destino, os tais 900 e tal metros de altitude. Ora, tinha pela frente uma descida mortífera de pedra solta que me levaria dos 800 aos 600 metros e depois uma parede que nos levaria acima dos 900.
Cá em baixo, no vale, parei para retemperar forças antes de voltar a subir. O João nem sequer parou e lá foi ele em grande forma. Eu aproveito a boleia, mas esqueçam, a determinado ponto é o João a empurrar a sua Scott e eu a minha Lapierre. Se querem que vos diga, não conheço ninguém que conseguisse subir aquilo tudo em cima da bike.
Quando finalmente chegámos ao topo, a sensação é fabulosa, e apercebemo-nos da dimensão do vale que acabáramos de vencer. Com grande esforço, lá vimos uns pontinhos em baixo, os nossos companheiros a iniciarem a derradeira subida.
Tal e qual um verdadeiro calvário, eu fiquei com as minhas marcas, das quais nunca cheguei a recuperar. E aquele sentimento de satisfação quando se chega a um pico destes, rapidamente se transformou num tormento. Penso que o João Pires é um dos que me compreende bem.
Eu só pensava numa coisa: Tinham passado apenas 20 quilómetros. Faltavam 50 (Outra crónica se seguirá).

11 comentários:

Pirex disse...

Alex, depois disto fiquei mesmo com inveja :)

Continua lá para eu ler o resto

abraço
Pirex

Alex disse...

Pirex,
tenho a certeza que terias gostado muito desta volta, sobretudo daquele "ataque" à Serra Fria:)
Agora o importante é que te metas bom, para retomares o pedal.
Abraço,
Alex

Brites disse...

Grande Post Alex... Descreve com bastante roigor o que aconteceu até à Serra Fria... Que dureza... Do mais duro que apanhamos até hoje...
Quanto Às mãzinhas do Brites... Foi um misto de falta de mãozinhas, com o facto do Ruio se atravessar à minha frante...
Estou ansioso pelo resto do teu Post...
Abraço,
Ass: Trinca-Tudo

João Tremoceiro disse...

Alex, um registo rigoroso realizado por um profissional.

Partilhamos uma das subidas mais complicadas na história dos Trincas, grande desafio.

Nota: A todos, especialmente ao Pirex e ao Hugo que sei são apreciadores, eu VI o Brites dar o malho. Maravilha.

Anónimo disse...

Grande estreia Alex. Post fantástico ... obrigado.

PL

Pirex disse...

PL, não foi a estreia do Alex, nem a pedalar nem a escrever... Estiveste muito tempo à procura do sapo??? :):)

JT, sem imagens não acredito :)

Abraço

Pirex

João Tremoceiro disse...

Pirex, acredita, o homem voou mesmo por cima da bike, e já diz o código da estrada a culpa é sempre do de trás. É o que te digo, o mito caiu. Quanto à foto, naquele contentamento da queda do Brites, não deu para tirar.

Brites disse...

JT, até para cair é preciso ter estilo e técnica... Foi uma queda estudada e executada com rigor...
Esta coisa de fazer uma égua, cair com estilo, levantar-se e continuar a fazer a descida não é para todos...

Anónimo disse...

Alex,
Cinco estrelas!
Bem .. para quem não esteve é um bocadinho frustante assistir a tudo sem ter pedalado :) .. mas novas oportunidades hão-de surgir e subidas não faltam para se irem fazendo!
Abraço,
Tiago

PS: Coloquem lá as fotos!

Anónimo disse...

Alex, muito bom. Compreendo perfeitamente palavra por palavra o que escreveste e até dá para sentir algumas dores. No fim valeu a pena a descida e os rojões.

Trinca Tuga

João Tremoceiro disse...

Rojões para uns bacalhau para mim...