01 março 2011

The Chia Factor (Part 2)

Este percurso tinha duas áreas de características muito diferentes. A primeira, muito montanhosa e dura, com as subidas de Marvão e da Serra Fria, deu lugar a um traçado na pleneplanície granítica logo após a passagem da crista quartzítica em El Piño.
Para os roladores são caminhos fantásticos. Subidas e descidas suaves, em trilhos bem marcados e sem buracos e, mais uma vez, uma paisagem deliciosa.
Grandes blocos de granito, que formavam colinas arredondadas, entre as quais os bosques de carvalhos e as pastagens verdejantes ladeavam os trilhos arrumados entre muros também de granito (para alguma coisa as pedras tinham de servir).
Comecei este trilho, mais uma vez, sozinho. A malta andava lá por cima na Serra Fria e uns quantos almondas espreguiçavam-se no pequeno restaurante à beira da estrada, onde uma visão espanhola lhes ia tirando a vontade de saírem do sitio. Perdi imenso tempo, nestes trilhos até ser apanhado pelo grupo, já que o caminho era fantástico e dei-me ao trabalho de tentar fazer algumas filmagens em andamento. Podem ver uma das tentativas precisamente no momento em que o trilho se confundiu com uma ribeira.
Quando o resto do grupo me apanhou, para logo de seguida me deixarem para trás mais uma vez (não sei onde é que vão buscar forças para andar aquela velocidade), decidi voltar à esquerda enquanto eles se desviaram para Valencia de Alcantara. Andavam sempre perdidos estes trincas e almondas.
Embrenhei-me pois, nas rotas dos dolmens, que são ás dezenas por estes lados, muito bem identificados e sinalizados e já estava convencido que iria tentar atravessar o Sever de forma a encurtar ainda mais a volta. Fui até um dos locais que tinha assinalado, mas na presença de um Guarda Civil espanhol e em bom espanhol técnico lá percebi que não ia conseguir atravessar naquele local. De acordo com as indicações teria de voltar e encontrar uma travessia uns kms atrás. Andar para trás significava mais uns kms com a possibilidade de não encontrar a travessia.
A coisa era mais ou menos decidir-me em encontrar-me novamente com o resto do grupo, ou perder tempo a encontrar uma passagem no Sever. Decidi por isso, valente, ir em frente. O facto de se tornar tarde, de estar sozinho, também ajudou.
Apontei para o próximo ponto de encontro uns kms mais à frente.

Pelo meio ataquei a ultima banana. Maldita.
Já tinha 40kms. Doiam-me as pernas, doíam-me os braços, doía-me a cabeça. Bom, doía-me tudo. A este propósito deixem-me dizer que encontrei outra função para aquelas perneiras que uso. Bem dobradas e devidamente acondicionadas no sitio certo, introduzem um aumento de conforto significativo lá em baixo. Isso, aí.
A calma e o ritmo que me impunha a mim próprio impediram-me de colapsar. É engraçado atingir este limite do cansaço físico (sobretudo se pensarmos que faltavam ainda 20 e tal kms) e sentirmo-nos capazes de o superar. Neste contexto aquela banana era um bem precioso, único e altamente capaz de regenerar o espírito bem como de me preparar para o resto do caminho.
E assim o fiz. Parei, descasquei a banana, deu uma trinca deliciosa, montei a bicicleta e, qual artista acrobático, pedalei com uma mão no volante e uma mão enpunhando a banana (isto soa mesmo mal) calmamente, num estradão largo e plano. Mais uma dentada e, o desastre, o horror. Do nada aparece um buraco na estrada em cujo solavanco e no desespero de evitar uma queda humilhante, como são sempre as do Brites, a banana escorrega-me da mão e projecta-se uns bons metros no ar aterrando com violência na poeira do caminho. Foi o fim da banana.
Juro-vos que ainda pensei fazer uma reanimação à banana, mas o seu estado não deixava margens para dúvida. Aquela banana já não me ajudaria mais e eu ainda hoje me lembro do gosto das duas dentadas que lhe dei. A barra energética que engoli de seguida nem me tapou metade da sensação de vazio que me encheu o corpo.
Foi pois com o desespero de ter perdido uma amiga que me dirigi ao ponto de encontro. Quando lá cheguei dei conta de um outro problema. Como saber se os outros já tinham passado.
Toca de ver as marcas de rodados e de procurar a pista de 19 bicicletas. Nicles. Mais uma vez cheguei primeiro (fraca consolação). Mas foi por um triz, já que de repente vejo um bando de ciclistas com dois almondas a puxar e a voar pelo estradão. Como é possível ... parecia que tinham começado a rolar à meia hora. Aquela gente voava na estrada ... disse-lhes olá e ... adeus.
Tornei a encontrá-los antes da passagem do Sever, onde um furo os obrigou a uma paragem mais prolongada. Devo dizer que o aspecto do grupo naquela altura me pareceu fraquejar. Aproveitei para atacar o saco de frutos secos e passas do João. Mais uma lição que não esqueço (aquilo é leve e sabe mesmo bem).
Atravessamos a ponte do comboio (numa breve reminiscência da grande expedição às Minas de S. Domingos) entramos no trilho original e depois de uma subida avantajada, adivinhem. Pois claro. Fiquei sozinho outra vez.
Desta vez a coisa parecia mais negra. Marquei no GPS o caminho mais curto para o Parque de Campismo e vi que tinha mais cerca de 10km pela frente.

Estava no limite. As pernas já nem tinham força para ter caimbras. Acho que só o cérebro funcionava bem, o que, até é uma boa coisa. Por isso pus a cabeça a funcionar e marquei o ritmo mental necessário para chegar ao fim, já que ninguém me iria buscar e a estrada que o GPS me marcou tinha movimento zero.
Fiquei com 10km de estrada só para mim. Foram os 10kms mais duros que já fiz e paradoxalmente os que mais gozo me deram. Decidi desligar os sensores da dor, desviei todos os impulsos nervosos para os olhos e os ouvidos e apreciei o cenário de solidão de fim de tarde. O sol a esconder-se atrás de Marvão, o reflexo dourado nos cabeços de granito, a recolha dos rebanhos de cabras e ovelhas, a passarada a acumular-se nas árvores, as rãs e sapos a iniciarem a coaxada nocturna e eu sozinho naquela estrada. Valeu.
É claro que tudo isto tem um custo. A porcaria do sol caiu e atrás dele caiu a temperatura ... a pique. Era só o que me faltava e foi pois com alegria que cheguei ao Parque de Campismo, subi à Praça de Touros e percebi que ... tinha chegado primeiro(ahahaha)que os outros trincas todos.

O resto da história conta-se em cinco linhas. Um banho quentinho e maravilhoso, um João quase em hipotermia, um assalto às entradas no restaurante, três imperiais, uns rojões deliciosos, um licor de canela fantástico e, mais que tudo, uma noite de sono profundo com a sensação que ainda não foi desta que fiquei definitivamente para trás.

3 comentários:

Pirex disse...

Maravilho, Paulo. Muito bom. Ah que saudades tenho dessas sensações. Vês como vale a pena? Se continuares a fazer companhia à malta, vais ver que num instante te superas eh eh eh. Os meus pesames à tua banana :)
Abraço
Pirex

João Tremoceiro disse...

Paulo, está espéctacular. Até me doi o corpo de ler a tua descrição.
Pesames a banana também, que a esta hora já foi devorada por um porco que sobreviveu à montaria.

Brites disse...

Até o PL manda piadas sobre a minha queda... É bom saber que continuo a ser uma fonte de inspiração para os Trinca-Pedras... :-)
Grande Post PL...
Abraço,
Brites