Com as duas bikes em cima do tejadilho da carrinha do Brites e as malas bem arrumadas, passavam poucos minutos das 19h00 quando nos fizemos à estrada para uma jornada de cerca de 430 quilómetros. Horas antes, já o pessoal da Galega tinha partido para as terras do Gerês, devidamente apetrechados (como mais tarde eu viria a constatar).
E porque o Pirex nos deu um conselho sábio para evitar o trânsito louco de Sexta ao final da tarde, também nós decidimos ir pela A8 até Leiria e depois seguir pela A17 até Aveiro. Por volta das 11 da noite, parámos em Braga para comer qualquer coisa antes de entrarmos nas lindíssimas Terras de Bouro.
Embora estivesse escuro, o ar que se respirava e a tranquilidade de serra dava de imediato a entender que a viagem já estava a valer a pena. Começamos a perceber que a manhã nos ia reservar um espectáculo deslumbrante.
Ao chegarmos ao Parque Campismo da Cerdeira, por volta da meia-noite, tínhamos à nossa espera o Pirex, e Nuno e o João, bem jantados e principescamente instalados (acreditam no que vos digo, aquela malta trata-se mesmo bem).
Quanto a nós, fomos “obrigados” a montar a tenda junto da entrada do parque, porque depois das 11 da noite já ninguém pode entrar com o carro ou montar arraiais dentro do recinto campista. Seja como for, o mais importante era podermos descansar umas horas antes do grande desafio que se avizinhava.
Depois de uma noite (bem) fria, levantámo-nos por volta das 7 e 15, com um dia magnífico e um cenário impressionante, a uma altitude próxima dos 700 metros, dominado por altas montanhas. Estava então na hora de nos juntarmos ao pessoal da Galega. A partir daí, foi a “excitação” normal de quem está a poucos minutos de iniciar uma grande aventura.
Pequenos-almoços tomados, equipamentos vestidos e bikes afinadas, começamos a rolar por volta das 9h00/9h30.
Os primeiros minutos foram feitos no asfalto, tendo depois o grupo entrado num dos estradões mais bonitos que já vi, com a azul cristal das águas da barragem Vilarinho das Furnas e o verde da vegetação, não se vendo qualquer vestígio de que o Outono está a chegar. Pelo meio, pudemos também apreciar alguns vestígios da arquitectura romana.
Foram vários quilómetros a pedalar de forma tranquila, com cada um de nós a deslumbrar-se com a vista. Estava claro que o dia ia ser longo, com tantas paragens para fotografias, sobretudo feitas pelo fotógrafo de serviço, o Brites. O filme, esse, esteve a cargo do realizador Pirex.
Após quilómetros de beleza ímpar onde pudemos acompanhar o serpenteado do Rio Homem, chegámos à localidade fronteiriça de Portela do Homem. Entrámos em asfalto, e Espanha estava ali tão perto. Da história, ainda restam os postos de alfândega, que aliás inspiraram a uma fotografia de grupo.
Já no lado espanhol, e após alguma insistência na procura da entrada no trilho certo, começámos a descer por cima de um tapete verde ainda molhado pelo orvalho, mas rapidamente voltámos à estrada de alcatrão e percebemos que o nosso trilho estava mais à frente. E vá-se lá imaginar…afinal, era a subir!
Caros Trincas, digo-vos que a partir daí foram muitos quilómetros a subir. Quando refiro muitos, devo estar a falar em mais de 10km, para chegarmos as 1100 metros de altitude. Para nós os cinco foi um recorde, já que nunca ninguém tinha andado a pedalar tão alto em cima de uma bike.
Com toda a modéstia, penso que fomos uns heróis ao subir aquelas serras do Gerês da parte espanhola. Porém, a vista que se nos deparou quando começámos o percurso descendente valeu o esforço.
Estávamos a cerca de 1000 metros e pela frente tínhamos autênticos maciços cuja imponência é indescritível. A grandeza era absoluta e havia apenas duas opções: ou continuávamos num estradão que se mantinha à mesma altitude e contornava os picos, ou então, optávamos pela descida que assumia a forma de single treck.
Felizmente, o caminho definido pelo Pirex apontava para a segunda opção e foi neste momento que as nossas vidas mudaram enquanto bttistas: a partir de agora temos o antes e o depois “do” single track (desculpem a carga dramática, mas efectivamente nunca vi nada assim, ao ponto de termos de parar para descansar os braços e as costas).
Necessitámos de cerca de 1h30 para descer em velocidade um single track de pedras e cujo um dos lados tinha um curso de água deslumbrante, com quedas de água e piscinas naturais. Porém, apreciar a natureza só com as bikes paradas, de outra maneira era queda perigosa na certa.
Passada essa aventura, e após uma paragem para retemperar forças, veio logo outra descida com um piso ainda mais apropriado a velocidades elevadas.
Por volta das duas da tarde, chegávamos a uma localidade famosa pelas suas características termais. O Pirex e o Brites foram os primeiros a experimentar a água de 45 graus de temperatura, devido à actividade vulcânica na região, depois o Nuno seguiu o exemplo. Quanto ao João, molhou apenas os pés. Eu fui o menos aventureiro, estando mais ocupado a beber umas bebidas frescas.
Após o divertimento, era preciso voltar a Portugal, mais concretamente à Portela do Homem. Sem grande surpresa, o percurso foi quase sempre a subir, com os últimos quilómetros a custarem a todos, mas mesmo assim o Brites e o Nuno desfrutarem das amoras gigantes que encontraram no caminho.
Já no final do percurso de serra e antes entrarmos no alcatrão para passar o posto fronteiriço, ainda tivemos que carregar as bikes à mão, num esforço que naquela altura já era homérico. Finalmente, atravessámos a “fronteira” e estávamos de regresso à Portela do Homem.
A partir daí foi a descer pelo asfalto, em jeito de descompressão, tendo depois o grupo apanhado novamente o caminho ao longo da barragem Vilarinho das Furnas, cruzando-nos com vários bttistas que estavam a dar o seu passeio de fim de tarde. Quanto a nós, tínhamos ainda uma subida antes de alcançar o parque de campismo.
Eram cerca das 17h30 quando chegámos ao ponto de origem, cansados, mas realizados pela aventura que acabáramos de viver.
Para terminar esta aventura da melhor forma, o Pirex, com a ajuda do Nuno e do João, (Brites desculpa lá, mas tu, tal como eu, parece-me que não pescas nada de culinária) fez um jantar que, além de delicioso, proporcionou um belo momento de convívio e de camaradagem.
Ao escrever este texto, confesso que estava cansado, mas totalmente realizado, e na esperança de que na próxima Primavera os Trinca-Pedras possam regressar em maior número ao Gerês, desta vez para explorar o lado português. Alexandre Guerra
* Este post é da responsabilidade de Trinca-Alex