09 maio 2008

Pedalar na Rota dos Cromeleques...

Passeio é a designação certa para descrever os 100km percorridos em terras alentejanas, mais concretamente em Montemor-o-Novo. A geografia ajudou muito mas também é verdade que o grupo está com um bom ritmo.

Estreou-se nestas andanças o Veiga. Este novo guerreiro (Trinca Top) juntou-se ao grupo com os seus bem vividos 52 anos, 92 kg muita experiência em corridas de maratonas e challenges .Trouxe uma bicicleta que merece andar por outras ciclovias e uma força de vontade como nunca vi. Foi sem dúvida o herói da manhã pedalou 45km ao nosso lado e depois do almoço regressou sozinho ao carro pelo alcatrão.
Mas vamos por partes.

Juntaram-se o Trinca-Boss, Trinca Tudo, Trinca Pirex, Trinca Tuga, Trinca Gadget, Trinca Seta, Trinca Ramos, Trinca Vermelho e Trinca Férias, na área de serviço para o café da manhã.

Estacionamos junto à praça de touros de Montemor e rolamos em direcção à antiga linha de comboio agora uma via ciclável, ainda não tínhamos saído da vila e já o GPS do Boss nos fazia andar cima abaixo à procura do início do passeio, ia ser bonito…Rolamos cerca de 15km pela antiga via férrea, passamos apeadeiros, antigas passagens de nível e algumas vedações sempre em amena cavaqueira em formato de pelotão.

Quando entramos nos verdadeiros trilhos tudo mudou, cursos de água, campos salpicados de tons primaveris, um perfeito quadro pintado pelo Criador que decerto inspirará o Boss. Campos de papoilas como há muito não via, flores lilases em contraste com margaridas amarelas e brancas deixavam todos boquiabertos, venham cá os senhores da moda dizer que estas cores não combinam…

Desfrutamos desta paisagem por alguns quilómetros até nos direccionarmos ao primeiro açude do passeio. Foi graças a uma senhora de 80 anos que localizamos esse ponto de referência. À pergunta “onde é?” a senhora olhou para o Boss apontou para o GPS e explicou:” Você trás isso ai que não serve para nada devia era trazer o caminho num papel” . O Boss com um cockpit de ultima geração e a senhora a querer regressar às cartas militares, nem pensar. Seguimos as indicações da senhora e lá paramos para reabastecer, levávamos 25km e o corpo já pedia gel e barritas, fizemos-lhe a vontade. Experimentei um gel com Taurina e digo-vos ganhei a força de um touro!

Andei sempre um pouco perdido com o olhar fixo na paisagem e por isso não fixei nome de povoações, lembro-me de cruzarmos um curso de água e depararmo-nos com uma fonte de água rica em ferro, a Fonte Ferrenha, um recanto aprazível inicio de um trilho lindo num terreno fora do comum. Segundo as explicações de um entendido, desfrutávamos, em plena Rede Natura 2000, de algo raro. A inexistência de pastoreio e de influência humana, permitiram o crescimento de uma quantidade incrível de fetos que conviviam harmoniosamente com inúmeros sobreiros, invulgar e saudável. A aula durou cerca de cinco minutos, tempo suficiente para aprender algo e preparar as pernas para as subidas que se avizinhavam.

O terreno tornou-se mais acidentado e irregular, trincamos dezenas de cercas, sempre bem manuseadas pelo Pirex, um verdadeiro portas. Atravessamos diversas herdades por entre sobrado e montado e, aos ziguezagues, lá chegamos aos Cromeleques dos Almendres. Paragem obrigatória para descanso, desfrutar a paisagem sobre Évora e dissertar sobre qual a razão que levou os nossos antepassados a colocar ali aquelas pedras. Medimos distâncias entre menires, referenciamos pontos cardeais e astros, falamos sobre os equinócios e os solstícios, cada um apresentou pontos de vista até chegarmos a uma conclusão: naquela época já se fumava erva da boa!
Demos ouvidos aos nossos estômagos e montamos as bikes, a descida até Guadalupe é rápida demais para pensar em coisas más, por isso, esquecendo traumas anteriores, pedalei a fundo quase sempre acima do 48km/h, no fim, uma sensação louca de alegria e um cheiro a bifanas ao qual não poderíamos virar costas. A organização do almoço recebeu-nos com simpatia e brincadeira, músicas da Carochinha e tinto da região foram companhia para aquele repasto degustado em pleno palco. Uma atracção extra para fazer rir o povo da região.

O Veiga, bem, decidiu regressar a Montemor por alcatrão. Foi sem dúvida o herói do dia e com um pouco mais de pernas e menos peso na bicicleta está apto a ser um dos nossos.

O GPS lá nos ia fintando em plena planície, a ponto de até o Boss não lhe ligar e seguirmos a intuição. Passamos mais uns menires bebemos umas águas para amenizar os efeitos do tinto e seguimos caminho.

Chegamos a uma herdade guardada por umas 40 cabeças de gado. Fomos recebidos com desconfiança, os olhares curiosos e gélidos apontavam na nossa direcção, o Alex que nunca vira um bife fora do prato reservara um lugar na parte interior do grupo. Quais heróis montados em cavalos de alumínio, trajados numa lycra que nos realçavam o agora reduzido volume entre pernas permanecíamos petrificados. Ao chamamento xô-xô a manada reagrupou, estávamos visivelmente em minoria, cavalaria leve contra infantaria da pesada. Abrimos o portão e tomamos posições em forma de losango, os medricas à direita e os que não tinham espaço à esquerda, avançamos devagar, devagarinho começamos a descer e alguém gritou: “elas vêm ai”, aquilo é que foi pedalar, a descida tornou-se curta e a subida plana, acho que foi assim que inventaram a tal Taurina.

Depois de tanta correria, um furo na roda dianteira do Tuga, presunto preto em liberdade e mais uma dezena de cercas paramos para descansar. O local escolhido foi a Barragem dos Minutos, uma mancha azul imensa pinta aquela paisagem alentejana. À babuja famílias faziam piquenique com o pretexto de ser dia da mãe, nós refugiávamo-nos do calor, repusemos alguns líquidos e sólidos para aguentarmos a etapa final. Não apetecia sair dali.

Talvez por estarmos ansiosos de chegar, talvez por a paisagem ser incrivelmente bela e os trilhos nos darem agora uma adrenalina adicional, pedalamos com leveza a um ritmo impressionante, nem os cães açaimados nos paravam, gelei um pouco quando vi a bizarra a correr ao meu lado mas como estava ao lado do Brites fiquei descansado. (N.E. ver Arrábida; Por entre montes e tortas)

Os últimos cinco quilómetros foram, a pedido do Trinca Tudo, feitos por alcatrão de forma a desentorpecer as pernas que já levavam 92 quilómetros, as marcas do selim estavam vincadas no nosso baixo forro e, sinceramente, já tinha vontade de regressar a casa.

Agradeço ao Boss este desafio, ao Clube de Cicloturismo de Montemor o trajecto e aos Trinca-Pedras que tornam qualquer passeio em momentos de grande diversão. Espero o próximo desafio seja ele onde for.

Até lá…boas pedaladas!

3 comentários:

Pirex disse...

È isto... é isto mesmo... grande crónica. Agora percebo porque é que o Doc anda a facturar com o blog... eh eh eh.

Ericeira no domingo?

JT disse...

Hugo, tu também fumas uma "erva da boa".

As tuas crónicas são esperadas com justificada expectativa.

Está lá tudo …… a parte do GPS é que não está lá muito bem, ....... nada é ser perfeito, não é.verdade?

Brites disse...

Hugo,

Com crónicas destas, vou começar a abster-me de fazer comentários nos meus posts. fazemos assim, eu publico as fotos e tu fazes a descrição do passeio.

ESPETACULAR...

Está mesmo ao detalhe.. incluindo a cena do GPS... LOL!

Um abraço e até à próxima voltinha... Já tou com saudades...

Trinca-Tudo (Brites)