15 outubro 2011

Caminho Português de Santiago - Guimarães (Caminho Central) II


2ª etapa Valença - Padrón


O dia começou cedo, diria até, muito cedo. A alvorada nos albergues ocorre antes das 7h da manhã e às 7h30 está tudo a arrancar para mais um dia de jornada. O estado é um misto de preguiça e ansiedade.
Deixamos partir os mais afoitos e dirigimo-nos à pastelaria mais próxima para encher o depósito, ou como se diz por aquelas paragens, o bandulho.
Já de barriga cheia passamos a ponte sobre o Rio Minho e entramos em terras espanholas pela bela vila de Tui. O seu casario medieval sobre o verde do Rio Minho não deixa ninguém indiferente, nem mesmo aquela hora da manhã.
Aqui em Tui o caminho torna-se mais envolvente, quem nos vê passar reconhece-nos como peregrinos e deseja-nos “un buen camiño”. As marcações também mudam e às habituais setas juntam-se agora as vieiras e os marcos que assinalam a distância até Santiago de Compostela.






Seguimos em ciclovia pela Virxen del Camino uma localidade que antecede um dos pontos míticos da peregrinação, a Ponte das Febres. Reza a lenda que San Telmo ali padeceu numa das suas pereginações. Uma placa incentiva os que por ali passam a pedir um desejo. Acreditando ou não o ritual lá se vai cumprindo.


Desfrutamos de belos trilhos arborizados antes de rolarmos pelo inferno de Porriño, uma zona industrial que de agradável não tem rigorosamente nada.
Passado este calvário o caminho serpenteia zonas rurais e de pinhal, ora em asfalto ora em terra batida. Antes da subida para Mós, paragem num rincón delicioso para beber um cafezinho e descansar um pouco dos 25km percorridos.


De Mós a Redondela foi um ápice com direito a uma descida com uma inclinação seguramente de 40%, algo que de bike é muito divertido mas que, a pé, provoca umas dores musculares que ainda as tenho na memória.
Estávamos sensivelmente no final do primeiro terço da etapa e agora começava a doer. O Tiago estreava um novo selim mas teve de o cobrir com algo mais fofinho para ter algum conforto adicional.


Se por um lado a vista sobre as Rias Baixas deslumbra, as fortes subidas empenam. Mas o caminho é mesmo assim, com altos e baixos. Desfrutamos das belas vistas sobre Vigo, e da sua luminosidade única que nos acompanhou vários quilómetros antes de descermos vertiginosamente até Ponte Sampaio, um local que marca a história espanhola por ter sido aqui que nuestros hermanos travaram as invasões francesas.


Trepamos por mais uma calçada romana e mais tarde paramos para almoçar em Pontevedra, o repasto foi umas deliciosas tapas de boquerones y pimientos piquillo. O corpo parecia acomodar-se ao descanso mas tivemos de contrariar tal estado e seguimos por caminhos rasgados por doces ribeiras.






Rolando por entre vinhas e milheirais, em amena cavaqueira sobre a vida, chegamos ao nosso destino, Caldas de Rei. Esta pacata vila termal é um ponto de paragem obrigatório. As múltiplas propriedades das suas águas ajudam a relaxar. Descansamos os pés numa bica que brota água a uma temperatura a rondar os 42ºC, aliviando as dormências que já se tinham instalado.





Como o sol ainda ia alto decidimos avançar pelo menos até Valga (O Pino) e assim encurtar a jornada de segunda-feira. Quando nos preparávamos para arrancar chegaram os nossos companheiros de Foz Côa http://www.bttfozcoa.blogspot.com/ que acabavam aqui a sua jornada. Trocamos algumas impressões sobre os caminhos percorridos até ai e despedimo-nos até uma próxima vez.
Caldas de Rei, para além das suas termas, têm também marcas romanas ancestrais como uma muito bem conservada ponte que serve de despedida a esta vila. Rejuvenescidos por esta paragem rumamos em boa velocidade até o recém inaugurado albergue de O Pino.



Com receio de arriscar fazer mais quilómetros e dormir na rua, pedimos à senhora para confirmar disponibilidade no albergue de Padrón. Os peregrinos de bicicleta não são prioridade nos albergues face a que chega a pé, mas nesta altura do ano os albergues não enchem e lá nos deram luz verde para mais 12km de caminho.


Assim que saímos de O Pino enveredamos por uma bela descida que nos fez lembrar Sintra, pena ser tão curta. Mais duas ou três subidas dignas desse nome e depois foi descontrair até Padrón. A etapa de 80km foi afinal de 92km!!



Padrón é um local muito importante por ter sido aqui que atracou o barco que trouxe os restos mortais do discípulo. A verdade é que esta pequena vila é mais conhecida pelos seus pimentos, uma variedade de pimento em que uns picam otros no!
Jantamos num animado restaurante, pimentos cañas e pasta foi a ementa, um momento animado que serviu também para balanço e celebração pelo caminho já feito.



3ª etapa Padrón – Santiago Compostela


Alvorada pelas 7h para percorrer os últimos 22km, o corpo não reagia aos 15ºC matutinos e pedalamos a uma média de 10km hora. Apesar de ser dia de semana os aldeões destas belas povoações graníticas partilhavam da nossa disposição, seria por ser segunda-feira? Talvez!


Em Milladoiro e, antes de iniciarmos um belo singletrack, assinalamos a última paragem desta aventura. Ainda faltavam 5km e por isso havia que desfrutar. Tempo para BTT do bom singletrack abaixo até entrarmos no perímetro urbano. Era altura de vencer a última subida de acesso ao centro histórico.








Á chegada à Praça Obradoiro explodi de alegria e emoção, os olhos brilhantes fixaram as altas torres da catedral e tudo o que me rodeava, talvez por isso fui felicitado por outros peregrinos enquanto percorria em círculos a praça. Não conseguia parar, era como se não quisesse que aquele momento tivesse fim. A verdade é que não tem! A verdade é que mal acabamos este caminho planeamos logo o próximo.




Acabamos mais fortes, mais conhecedores, mais serenos, o nosso Eu agradece mas pede-nos mais, mais outra jornada.


Até lá…boas trincadelas !!

vê estas e outras fotos desta viagem em:


se quiseres pedir a credencial do peregrino:


para outras informações sobre o caminho:



5 comentários:

SuperStar disse...

O Caminho de Santiago é o Caminho da Vida, tal como este peregrino, sabiamente mencionou este post BTTista fabuloso!
A Teoria todos nós sabemos, ou achamos que sabemos. A Prática é o nosso dia-a-dia, onde somos colocados à prova, quando questionamos, quando julgamos, quando reconhecemos os nossos erros e as nossas fragilidades e ... quando nos orgulhamos de ser quem somos e de ter alcançado o que alcançámos.
A verdade é que no Caminho de Santiago, não estamos lá para nada mais do que o viver, do que nos questionar, do que para colocar algumas perguntas e encontrar algumas respostas. Temos tempo para tudo, para reparar num pequeníssimo pormenor que marca toda a diferença no momento, para viver intensamente cada dor que nos aparece, para reparar que nos cruzamos com pessoas que nos deram a mão, ou vice-versa. Tudo encaixa e nada parece ser ao acaso!
A Vida é assim. Na nossa correria, rotina, stress, estamos tão entretidos que não reparamos em nada, em ninguém, e o mais grave ... por vezes nem nos questionamos. O grande Desafio é transportar a Calma, a Serenidade, a Sabedoria que o Caminho nos mostra em cada um dos nossos dias.

Agradeço a Deus por ter tão próximo de mim este peregrino, que me acompanhou na minha primeira jornada no Caminho de Santiago e que me acompanha no Caminho da Vida.

Peço desculpa aos Trica por um comentario tãããõoooo longo....

Felicidade e Bom Caminho a todos !
Susana

Pirex disse...

Bem Susana, palavras sentidas :) Eu ainda não fiz este caminho, contudo em outros que tenho partilhado com os Trincas, tenho sentido um pouco disso tudo. Mas nada como um pouco de Hallibut para por tudo no lugar eh eh eh.

Abraço e parabéns pelo objectivo alcançado.

Abraço
Pirex

Anónimo disse...

Bem, estava eu preparadíssima para comentar os petiscos, quando me deparo com comentários tão bonitos e tão profundos…agora fiquei com vergonha!
Sem sequer ter consciência disso tive uns momentos de introspecção…Somos diariamente bombardeados com austeridade, brutalidade e mais não sei quantas “dade”…e entre o levantar para ir para o trabalho e o chegar a casa para realizar mais 1001 tarefas, pouca disponibilidade sobra para pensarmos que possivelmente até somos afortunados…Não devíamos ter como garantido o facto de chegarmos ao fim do dia e termos alguém para nos dar um beijo, um abraço, para nos dizer “Gosto de ti”.
Acho que todos nós devíamos fazer o caminho (contra mim falo)...mais do que um caminho a pé, é um caminho até nós…Talvez todos nós nos tornássemos mais tolerantes…talvez o facto de termos 20 cêntimos de diferença num documento deixasse de ser o fim do mundo… Talvez o facto de as coisas não correrem como nós gostávamos começasse a fazer sentido…Talvez…
Obrigada Trinca Gonçalves (será que é assim que te chamam?!) por partilhares connosco um bocadinho da tua viagem…Obrigada por, nem que seja por uns breves minutos, nos fazeres sentir paz interior…Obrigada por me fazeres lembrar que é importante questionar-me a mim primeiro, antes de questionar os outros...Obrigada...

Beijinho da Suposta Anónima…

P.S. – Ok, perdi a vergonha…esses petiscos…são qualquer coisa!

Carlos Gabriel disse...

Boas Amigos já vi que correu tudo bem, venha proxima saida para santiago...
Aqui fica o link de videos da minha passagem pelo caminho acompanhado claro.

http://bttfozcoa.blogspot.com/2011/10/videos-do-caminho-de-santigo-portugues.html

Anónimo disse...

http://achatcialisgenerique.lo.gs/ cialis generique
http://commandercialisfer.lo.gs/ cialis generique
http://prezzocialisgenericoit.net/ cialis online
http://preciocialisgenericoespana.net/ comprar cialis